Coréia do Norte está caminhando para se tornar a nova China

Mesmo que isso não esteja de acordo com as práticas do país, a Coréia do Norte permitiu que milhares de cidadãos estudassem empreendedorismo

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A Coréia do Norte pode parecer um terreno árido para os negócios. Mas apesar da realidade do país, alguns empreendedores entusiastas desafiaram a falta de tecnologia e apoio para iniciar seus próprios empreendimentos – mesmo antes da cúpula histórica levantar uma perspectiva de maiores oportunidades econômicas.

Há um site de comércio eletrônico, por exemplo, chamado Manmulsang – uma espécie de loja que vende de tudo um pouco que até lembra a Amazon – e o Okryu, um serviço de compras móveis. Há também um aplicativo de navegação, o Gildongmu 1.0, uma espécie de Waze coreano. Mas não foi fácil propagar todas as ideias. Para conseguir vender seus aplicativos, os fundadores precisam superar alguns obstáculos – como o fato de que os clientes precisam ir até uma loja física para fazer o download de seus aplicativos. Ou seja, é uma espécie de App Store física para autocratas.

Ainda assim, a Coréia do Norte permitiu que milhares de cidadãos estudassem empreendedorismo, mesmo que isso não esteja de acordo com as práticas socialistas. Choson Exchange, um grupo sem fins lucrativos, treinou mais de 2 mil norte-coreanos em seu próprio país e em Cingapura na última década, por exemplo. Ian Collins, um instrutor australiano da Choson, realizou um workshop de quatro dias para 80 pessoas ao norte de Pyongyang, em novembro. Seus alunos aprenderam como desenvolver modelos de negócios e suas ideias de negócios em produtos em três minutos.

Vários estudantes criaram produtos de mobilidade que dependiam da energia solar. Outro grupo propôs placas de Taekwondo que podem ser quebradas e remontadas mais de 100 vezes. Segundo Collins, foi falta de recursos que gerou engenhosidade em seus alunos. "Eles eram provavelmente as pessoas mais ansiosas e famintas com quem eu já trabalhei", disse Collins.

Os melhores estudantes desse cursos frequentam as principais universidades do país, como a Universidade Kim Il Sung e a Universidade de Tecnologia Kim Chaek. Nas instituições, eles aprendem os fundamentos da ciência da computação, embora o acesso à Internet ainda seja limitado. Além disso, esses alunos ganham diversos prêmios em competições internacionais de codificação e seus talentos já ajudaram a Coréia do Norte a emergir como uma ameaça global à segurança cibernética.

Jim Rogers, investidor e presidente da Rogers Holdings, ficou surpreso ao ver as mudanças ocorrendo no regime rigidamente controlado. Sua maior surpresa foi durante uma visita a um mercado movimentado na cidade de Rason – no local havia centenas de barracas que vendiam produtos de todo o mundo. "A Coreia do Norte está hoje onde a China estava no início dos anos 80", disse ele. “Tem todos os sinais – um mercado negro que estava se desenvolvendo e novas coisas acontecendo. Todas essas coisas geralmente levam a um futuro muito promissor”.

Sob a administração de Kim Jong Un, uma nova classe de comerciantes emergiu. Frente a esse novo cenário, os investidores, conhecidos como “donjus”, combinados ao capital e know-how, tem ajudado o crescimento econômico da Coreia do Norte a se acelerar. Jim Rogers, o investidor americano, disse que o esforço de Kim Jong Un para acabar com o isolamento do seu país é imparável, e ele está procurando por qualquer oportunidade de investir na Coréia do Norte.

O maior obstáculo para os avanços do país são as restrições ao acesso global à Internet – isso porque o provedor poderia causar um influxo de informações que ameaçam o regime, disse Lee. "Com avanços ou não, o fato dos norte-coreanos gozarem de pouca liberdade não vai mudar facilmente", afirma.

Mas depois de anos banindo telefones celulares, a Coréia do Norte começou a permitir seu amplo uso e, só em 2017, havia cerca de 4 milhões de usuários de telefones celulares e smartphones no país, segundo a Seoul-based Korea Trade-Investment Promotion Agency. Com todos esses avanços, os coreanos estão ansiosos para serem como seus colegas do sul, disse um norte-coreano que trabalhou durante anos no setor de tecnologia do país antes de desertar recentemente. "Se o país abrir, veremos todo tipo de geeks tentando ganhar dinheiro", disse o desertor, que pediu para ser identificado por seu codinome, Lee Kang-soo.

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