Bradesco em busca de uma ‘cara nova’

Hoje o banco possui um conjunto de iniciativas em diversas frentes -- inovação interna, coinovação, investimentos, aceleração

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Com US$ 333 bilhões em ativos e 95 mil funcionários, o Bradesco é visto como um banco avesso a aventuras e modismos e possui uma cultura muito própria. É um organização que dá um enorme peso à segurança, sempre em nome de uma estabilidade que não deve ser ameaçada. Também mantém seus funcionários por muitos e muitos anos -- às vezes, ao longo de uma carreira -- e não é raro ex-office boys que se tornaram executivos. O banco é privado, mas a cautela frente ao risco e a valorização da estabilidade cultivaram um ambiente pouco convidativo a jovens empreendedores em busca de inovar e fazer fortuna rapidamente.

Essa realidade se manteve mais ou menos inalterada ao longo de décadas, até que os negócios dos bancos, assim como o de diversos conglomerados até então inabaláveis, passassem a ser alvos de startups. Coincidência ou não, nos últimos anos o Bradesco fez uma movimentação intensa que tem tornado o banco para cada vez mais conectado com o universo digital. Os desdobramentos para o seu modelo de negócios são inúmeros -- e, dado o seu porte, ecoam com força no ecossistema.

Os mercados de tecnologia e financeiro há tempos tem se surpreendido com a magnitude e a consistência dos programas de empreendedorismo e inovação do banco. O comentário mais frequente é que o Bradesco às vezes leva um bom tempo para pisar em alguns territórios, mas quando chega o faz com uma senhora patada de urso. Hoje o banco possui um conjunto de iniciativas em diversas frentes -- inovação interna, coinovação, investimentos, aceleração. Com isso, tem formado um programa que desponta entre seus pares do país. “Mesmo comparado com o que há lá fora, é muito amplo, estruturado e planejado”, diz Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil e parceiro do Bradesco em alguns desses projetos.

O Bradesco não revela o investimento feito nessas iniciativas, mas Luca Cavalcanti, diretor do Bradesco responsável por iniciativas voltadas para startups, fala em mais de sete dígitos: “Estamos falando de muitos, muitos milhões”. Tudo começou com o InovaBra Polos, iniciativa que buscava identificar oportunidades e multiplicar a inovação internamente em cinco frentes (meios de pagamento, seguros, canais digitais, agência do futuro e produtos). Com eles, o banco envolveu mais de 500 pessoas quase semanalmente em discussões sobre inovação. Criou-se ali, em 2012, um comitê executivo de inovação que deliberava sobre aquelas ideias.

“O Bradesco consegue gerar envolvimento e cumplicidade de quadro, o que talvez seja uma das nossas marcas mais fortes”, afirma Cavalcanti. “De fato, o Bradesco conta com um engajamento forte”, diz o advogado Rodrigo Menezes, que conta com ampla experiência no setor.  

Cerca de um ano depois, em 2013, percebeu-se a necessidade de expandir a busca por inovação, e assim surgiu o InovaBra Startup. O programa presta apoio a empreendedores com negócios em áreas de interesse do banco -- e, claro, ajuda a levar ainda mais informação aos funcionários envolvidos com startups. Mais de 1,6 mil startups se inscreveram, 30 realizaram provas de conceito e seis fecharam contratos com o banco. Já foram aportados R$ 6 milhões nessas empresas.

O passo seguinte foi a criação do InovaBra Venture, que é o fundo de R$ 100 milhões que o Bradesco tem para injetar em startups. O mais recente desses programas, lançado em fevereiro, foi o InovaBra Habitat, que o próprio banco apresenta como “espaço de coinovação dedicado à geração de negócios de alto impacto baseados em tecnologias digitais disruptivas”. Sediado em um prédio ao lado das avenidas Paulista e Consolação, na capital paulista, o Habitat conta com 22 mil distribuídos ao longo de dez andares. Os ocupantes serão startups, grandes empresas e investidores.

SAIBA MAIS SOBRE O INOVABRA HABITAT ASSISTINDO AO VÍDEO

É mais um passo do Bradesco no sentido de se posicionar como um banco  capaz de se abrir -- e se adaptar -- às transformações da nova economia.

Um pouco antes, em janeiro, o banco anunciou o lançamento do InovaBra Lab. Trata-se de um laboratório para acelerar o desenvolvimento de inovações ao lado de parceiros de tecnologia do banco, entre os quais Cisco, Dell, EMC, Google, IBM, Intel, Microsoft e Oracle. “Se você observar a nossa evolução com a inovação, o banco historicamente sempre foi inovador em todas as suas instâncias”, afirma Cavalcanti.

Integrar-se ao ecossistema de inovação se tornou imprescindível para as grandes empresas. No setor financeiro, o que já era importante ganhou senso de urgência com a ascensão das fintechs, as startups que estão revolucionando o setor financeiro em diversas frentes. A nova concorrência é ágil, pulverizada e atua de forma desconhecida. Diante disso, corporações como o Bradesco se veem diante do imenso desafio que é fazer parte de um mundo novo, no qual devem ajudar para serem ajudados. Como os interesses se entrecruzam, é um equilíbrio delicado.  

A seguir, Luca Cavalcanti fala do Next, o banco digital do Bradesco, e de como diferentes iniciativas formam a estratégia da organização:

 

Qual a importância do Habitat no conjunto de programas do Bradesco voltados à inovação?

No universo dos bancos, entendemos que os canais digitais têm uma evolução praticamente diária. Cada vez que acordamos, pode haver um novo concorrente fazendo algo de diferente no mundo. Diante disso, acreditamos que os canais digitais irão se modernizar cada vez mais através de dois pontos: por meio de novas funcionalidades e da melhoria da experiência do cliente. Nesse sentido, o Habitat é uma Disneylandia.

Como assim?

Aqui você tem diversas startups trazendo ideias diferentes. É possível encontrar empresas que facilitam o acesso aos serviços ou trazem novas ideias para os arranjos de pagamento. Quem vai facilitar isso é a API (em português, Interface de Programação de Aplicativos). Outro lugar onde vamos pescar muitas oportunidades é o Next, que está no centro da nossa estratégia. O Next é um banco para aquela pessoa 100% digital, que quer um formato diferente e uma linguagem mais jovem.

Quais são as diferenças em relação ao que já existe?

Esse público não quer conversar com as pessoas, ele prefere resolver os problemas através de mensagens. Também espera algo que vá além da oferta de um banco: ele quer um agregador, por isso o Next tem parceria com Uber, iFood, Parafuzo. O Next já é um agregador dentro de um universo bancário no qual não há ponto de atendimento a não ser o app.

Qual a relação do Next com o Habitat?

O Next já está bebendo água aqui. Nós temos uma empresa nesse prédio que oferece uma plataforma que conversa com o Uber e a 99 Taxi por meio de API. Por que não conectá-los ao Next? São conceitos novos e diferentes com os quais os executivos do banco já estão convivendo.

Qual o lugar do open banking (tecnologia que possibilita a terceiros acessar e até movimentar recursos de contas, desde que tenha autorização do cliente) nessa estratégia?

Uma outra parte da estratégia, da qual não podemos falar muito hoje, é o open banking. Assim que houverem políticas, governança e projetos, as startups poderão gerar oportunidades para o banco. Aí certamente surgirão novos modelos de negócios. Pensando nisso, só com base nesses pilares de transformação digital -- melhorias nas funcionalidades atuais, o Next e open banking --, estamos diante de um universo imenso.

O Habitat terá grandes empresas de tecnologia como Amazon e Microsoft. Como o Bradesco, todos querem antecipar -- e abocanhar -- as novidades antes. Como será essa concorrência dentro de casa?

Essa é a beleza do ambiente de colaboração para inovação. A concorrência pode existir. Isso vai ocorrer não apenas no setor financeiro, mas entre empresas dos setores de saúde, da construção civil e de mídia. Em mídia, por exemplo, teremos o Grupo Estado e o SBT. O SBT quer pensar a audiência on e off line com especialista em algoritmos e Big Data.

Mas como isso será possível na prática?

Estamos montando times que vão cuidar dessas grandes empresas. Vamos criar atividades para aproximá-las das startups que possam interessar. Neste ambiente, posso até ter empresas concorrentes, mas não vou colocá-los na mesma sala de desenvolvimento. Teremos equipe técnica especializada para fazer essa mediação. Nesse caso, podemos inclusive atuar para que uma startup seja vendida para duas empresas.  

Como isso poderia ser feito?

A Semantix é um excelente exemplo. O Bradesco fez uma aceleração no início da startup e hoje eles prestam serviço para quatro bancos, não só para o Bradesco. Ela lida com as suas questões éticas e de sigilo com todos os bancos. O que é mais bonito nisso é que no ambiente corporativo não irá isolar a startup. Ela poderá interagir com diversos players em momentos diferentes da sua trajetória. O ambiente é de fato colaborativo. Temos empresas que receberam aporte conjunto de três fundos.

Para finalizar, vocês se inspiraram em algum modelo?

Não nos inspiramos no que já existe. Entendemos que temos um modelo diferente. A gente inclusive não gosta quando fazem algum tipo de comparação. A nossa intenção não era concorrer. O que existe [na concorrência] é respeitado e tem valor, trouxe benefício para o mercado no que diz respeito à colaboração para o trabalho, o chamado coworking. Mas nós aqui temos uma leitura diferente. Somos uma parte integrante do ecossistema e queremos entender e aproveitar as boas ideias. Mas queremos gerar um movimento diferente do que existe hoje.  

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