Movimento Mulher 360 e dados de saúde corporativa mostram burnout batendo recorde na alta gestão, bem na hora em que a NR-1 torna risco psicossocial obrigação legal.
Por que afastamentos por transtornos de saúde mental continuam subindo?
, Redator
6 min
•
9 set 2026
•
Atualizado: 9 set 2026
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!
Apenas 23,1% dos executivos de alta gestão no Brasil se consideram saudáveis, segundo levantamento do Movimento Mulher 360. Não é um recorte de percepção isolada: é a maioria de quem ocupa cargo de decisão nas empresas brasileiras admitindo, na própria pesquisa, que não está bem.
O dado chega junto com um segundo, ainda mais direto: dois em cada três (66,7%) das mulheres em posições de liderança já apresentam sintomas de burnout.
O número reforça um padrão que pesquisas de clima organizacional vêm captando há anos, mas raramente com essa magnitude: a dupla jornada de comando técnico e pressão por representatividade custa caro, de forma desproporcional, a quem já enfrenta mais barreiras para chegar à cadeira. Um levantamento do Centro de Referência Einstein em Saúde Mental (CRESM) complementa o quadro: 50% dos executivos, de forma geral, reconhecem que o próprio ambiente corporativo representa ameaça ao bem-estar psicológico, e 39% dizem não se sentir amparados pela organização diante do estresse.
Ou seja: metade da liderança sabe que o problema existe. Menos da metade sente que a empresa está do seu lado quando ele aparece.
A Suridata, plataforma de inteligência em saúde corporativa, analisou 45.240 atestados médicos emitidos entre 2022 e 2025 e encontrou um salto de cinco vezes nos afastamentos por saúde mental em 2025 na comparação com o ano anterior. Essas licenças também duram, em média, o dobro do tempo de afastamentos por outras doenças.
O impacto financeiro é concreto: o sinistro médico de homens diagnosticados com transtorno psiquiátrico chega a R$ 13.400, contra R$ 2.100 em casos sem risco psiquiátrico identificado — uma diferença de 538%. Isso antes mesmo de contar o custo indireto de um executivo afastado por meses no meio de uma decisão estratégica que não pode esperar.
Até aqui, tudo isso poderia ser tratado como pauta de RH. Deixou de ser. A atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que obriga empresas a identificar, avaliar e gerir riscos psicossociais no ambiente de trabalho, entra em fase de fiscalização a partir de 26 de maio de 2026. Não é mais recomendação de boas práticas — é exigência legal, com autuação prevista para quem não conseguir demonstrar gestão ativa desses riscos.
O timing não poderia ser mais desconfortável para quem só agora está descobrindo, via manchete, que a norma existe.
O erro mais comum nas empresas que estão correndo para se adequar é tratar a NR-1 como formulário a preencher, não como redesenho real de carga de trabalho, prazos e cultura de cobrança. Uma política de bem-estar sem mudança na forma como metas são definidas e cobradas produz o mesmo resultado da política de compliance de papel: protege a empresa num processo, não protege ninguém de fato.
O problema, no fim, não é individual — é estrutural. Enquanto liderança sênior tratar exaustão como característica pessoal de quem "não aguenta a pressão", em vez de sintoma de um sistema mal desenhado, os números da Suridata e do Movimento Mulher 360 vão continuar subindo.
Um executivo que ignora os próprios sinais de esgotamento não está mais disponível para decisão de qualidade — só está mais disponível fisicamente. Entender isso como agenda estratégica, e não como benefício de RH, é o que separa empresas que vão só cumprir a NR-1 no papel das que vão de fato reduzir o próprio índice de afastamento. Repertório para liderar sob essa pressão real, sem recorrer a discurso motivacional vazio, é o tipo de capacidade que o Executive Program ajuda a desenvolver.
Gostou deste conteúdo? Deixa que a gente te avisa quando surgirem assuntos relacionados!
Leia o próximo artigo
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!