Mat Velloso, que passou por Microsoft, Google DeepMind e Meta, diz que mais da metade dos dados do Brasil é processada fora do país. E aponta a energia como gargalo.
Mat Velloso
, Redator
9 min
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20 out 2026
•
Atualizado: 20 out 2026
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Em 1500, o Brasil foi descoberto por quem vinha de fora. Em 2026, segundo um brasileiro que ajudou a construir a IA de três gigantes da tecnologia, o país está sendo redescoberto, agora como fonte de dados processados em outros lugares.
“O Brasil está sendo colonizado digitalmente”, disse Mat Velloso em entrevista à Bloomberg Línea, publicada em 9 de outubro. A conversa aconteceu durante o Brazil at Silicon Valley, evento organizado por estudantes de Stanford e Berkeley, que teve sua primeira edição no Brasil em parceria com a Fiesp.
O alerta merece atenção pelo currículo de quem o faz, e pelo que ele significa para as empresas brasileiras.
Um brasileiro que esteve no centro da corrida da IA. Nascido em São Paulo e criado em Belo Horizonte, Velloso passou mais de 12 anos na Microsoft, incluindo um período como conselheiro do CEO Satya Nadella. Depois foi vice-presidente de produto para plataformas de desenvolvedores de IA no Google DeepMind e ocupou o mesmo cargo no time de superinteligência da Meta.
Ele deixou a Meta em fevereiro de 2026, segundo a reportagem, para se dedicar mais ao Brasil, e hoje é diretor de produto da Docker.
Significa depender de outros países para processar a inteligência que move a economia. Velloso cita uma estimativa atribuída a Igor Marchesini, assessor especial do ministro da Fazenda: mais da metade dos dados do Brasil é processada em data centers no exterior.
O risco, segundo ele, é estratégico. Se um país estrangeiro pudesse “fechar a torneira” da inteligência usada pelo Brasil, sistemas críticos parariam. Para Velloso, essa é a prioridade número um. Ele concorda com a definição do presidente Lula de que soberania é ter controle sobre o próprio destino.
Em outras palavras, não se trata só de onde os servidores ficam. Trata-se de quem controla a infraestrutura de que o país depende.
Por causa da energia, principalmente. Velloso aponta a energia barata e abundante como o principal gargalo para atrair data centers e GPUs. A comparação que ele faz é dura: a China adiciona cerca de 540 gigawatts à sua rede por ano, o equivalente a dois Brasis, enquanto o Brasil adiciona cerca de 9 gigawatts.
Ao mesmo tempo, a demanda existe. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, citado pela eixos, os pedidos de acesso à rede elétrica para data centers somam 38 gigawatts. Uma parte deles, de 7,1 gigawatts, representa investimentos estimados em R$ 159 bilhões.
Velloso elogia o Redata, regime especial de tributação para data centers, mas diz que o avanço é lento demais. O projeto ainda está em discussão no Senado.
Segundo Velloso, está mirando nos lugares errados. Ele diz que o Brasil regula demais algumas áreas e de menos outras. O país tem regras contra deepfakes, por exemplo, mas não tem proteções contra manipulação baseada em dados, como no caso Cambridge Analytica.
Ele critica especialmente o projeto de lei sobre direitos autorais na IA, que chama de “imposto sobre inferência”. Para Velloso, a inferência, que é o uso dos modelos de IA, deveria ficar mais barata, e não mais cara.
O ponto é controverso. Criadores de conteúdo e entidades do setor cultural defendem remuneração pelo uso de suas obras no treinamento de modelos. O debate está longe de ser consensual, mas a crítica de Velloso levanta uma questão legítima: quais devem ser as prioridades regulatórias de um país que quer competir em IA?
Significa que a estratégia de IA de uma empresa também é uma questão de dependência. Toda empresa que usa modelos de IA estrangeiros, hospedados em nuvens estrangeiras, depende de decisões tomadas fora do país: preço, disponibilidade, regras de uso e até restrições geopolíticas.
Isso não significa abandonar fornecedores globais, que hoje oferecem as melhores tecnologias. Significa conhecer as próprias dependências e ter planos para elas. Algumas perguntas ajudam:
Velloso também faz um convite aos líderes empresariais. Ele diz que os grandes empresários brasileiros estão interessados na prosperidade do país e sugere que identifiquem os pontos cegos e onde podem ajudar.
Velloso acredita que sim. Ele aponta como pontos fortes a cultura coletiva do país, o SUS, o internet banking e o Pix, exemplos de infraestrutura digital em que o Brasil é referência mundial. A lição do Pix, aliás, é relevante: o país foi capaz de construir uma infraestrutura própria, de uso massivo, que hoje é estudada no exterior.
Os obstáculos, segundo ele, são a lentidão das decisões públicas, a burocracia do sistema jurídico e a falta de planejamento de longo prazo. Ele compara o ciclo eleitoral de quatro anos com o planejamento chinês de décadas.
O alerta de Velloso vale para o país e para cada empresa. A IA está virando infraestrutura, como a energia e as telecomunicações. Quem não sabe de onde ela vem, quanto custa e quem a controla está exposto a riscos que não aparecem no planejamento.
Construir uma estratégia de IA que equilibre o uso das melhores tecnologias globais com controle sobre dados, dependências e custos é o que o AI FIRST da StartSe ajuda lideranças a fazer, para que a empresa use a IA de fora sem ficar refém dela.
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