Mais executivos querem uma cadeira de conselheiro, mas a renovação dos conselhos caiu para 18%, segundo a Spencer Stuart. E o que o cargo exige é quase o oposto da rotina de um CEO.
A passagem da diretoria executiva para o conselho exige uma mudança profunda de postura.
, Redator
8 min
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29 out 2026
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Atualizado: 29 out 2026
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Durante 20 anos, ele foi pago para ter a resposta. Na primeira reunião de conselho, descobre que o trabalho agora é fazer a pergunta.
A transição de executivo para conselheiro é o próximo passo na carreira de muitos C-levels brasileiros. A disputa por essas cadeiras ficou mais apertada. Segundo o Board Index Brasil 2025, da Spencer Stuart, noticiado pelo Times Brasil, os novos membros ocuparam 18% dos assentos nas empresas pesquisadas, contra 24% no levantamento anterior. Parte da queda se explica por menos empresas na amostra, mas a mensagem é clara: há mais candidatos do que cadeiras.
Das 191 novas nomeações, 106 foram de estreantes, que começaram seu primeiro mandato em uma ou mais empresas da amostra.
Porque o cargo pede competências quase opostas. A conselheira Fátima Gouveia, cofundadora da Tryvea e membro do IBGC, resumiu a diferença ao Times Brasil: “Ser CEO ensina a decidir e executar; conselho pede o oposto: perguntar, provocar, sustentar posição sem estar na operação”.
O CEO é avaliado pela velocidade com que transforma problemas em ações. O conselheiro é avaliado pela qualidade das perguntas que faz a quem vai executar. O primeiro carrega a responsabilidade de fazer. O segundo, a de garantir que o que está sendo feito faz sentido.
Quem passa décadas sendo premiado por resolver leva esse reflexo para a mesa do conselho. E ali ele vira problema.
O primeiro é a vontade de resolver. O ex-CEO ouve um problema na apresentação da diretoria e, em cinco minutos, já tem a solução. Parece contribuição. Na prática, tira da gestão a responsabilidade pela resposta e coloca o conselho dentro da operação.
O segundo é a urgência. Executivos vivem de ciclos curtos: a semana, o mês, o trimestre. O conselho existe para olhar o que o trimestre não enxerga, como sucessão, riscos de longo prazo e a sustentabilidade da estratégia. Um conselheiro preso ao curto prazo vira mais um diretor, só que sem crachá.
O terceiro é a necessidade de ter razão. Na diretoria, o CEO dá a última palavra. No conselho, a decisão é colegiada. É preciso sustentar uma posição com firmeza, aceitar ser voto vencido e continuar contribuindo na reunião seguinte.
O quarto é a confiança excessiva na própria experiência. O ex-CEO de varejo tende a enxergar qualquer empresa como uma rede de lojas. Repertório é valioso, mas só quando vem acompanhado da humildade de entender que aquele negócio é diferente.
Estão, e os próprios conselheiros reconhecem o espaço para melhorar. Na pesquisa anual da PwC com conselheiros americanos, divulgada em setembro, 81% disseram que seus conselhos podem questionar a gestão sobre estratégia de forma mais eficaz.
Questionar com eficácia é diferente de interferir. É a habilidade de fazer a pergunta que obriga a diretoria a pensar melhor, sem tomar a decisão por ela.
No Brasil, há um sinal da mesma separação: o CEO participa do conselho da própria empresa em 20% das companhias pesquisadas pela Spencer Stuart, contra 26% no levantamento anterior. Os papéis estão ficando mais distintos.
Que ele preencha uma lacuna, e não que ocupe uma cadeira. “Cada cadeira nova precisa justificar uma lacuna estratégica”, disse Fátima Gouveia ao Times Brasil.
Isso muda a forma como o executivo deveria se apresentar a um conselho. Currículo de CEO bem-sucedido é condição de entrada, não diferencial. A pergunta que o conselho faz é outra: que tipo de olhar essa pessoa traz que hoje falta na mesa? Experiência internacional, profundidade em tecnologia, vivência em reestruturação, conhecimento de um mercado específico.
O executivo que chega ao conselho dizendo “fui CEO por 15 anos” responde a uma pergunta que ninguém fez.
Começando antes de sair da operação. Alguns movimentos ajudam: participar de conselhos consultivos de empresas menores, onde se aprende o papel com menos risco, estudar governança de forma estruturada, observar como os conselheiros da própria empresa fazem perguntas e, sobretudo, treinar o silêncio.
Parece simples, mas o hábito mais difícil de largar é o de falar primeiro. Na diretoria, quem fala primeiro dá o tom. No conselho, quem fala primeiro pode encerrar a discussão antes que ela aconteça.
A cadeira de conselheiro não é uma promoção do cargo de CEO, e sim uma mudança de profissão. Quem a trata como continuidade leva para a mesa os reflexos que o fizeram vencer na operação e que ali mais atrapalham do que ajudam. Quem a trata como um novo ofício chega preparado para fazer o trabalho que o conselho precisa. Desenvolver essa nova postura, com repertório de governança e prática de questionar, provocar e decidir em colegiado, é a proposta do Board Program da StartSe, para executivos que querem chegar ao conselho como conselheiros, e não como diretores sem crachá.
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