Compra da NeoSpace por R$ 2,925 bilhões coroa dois anos de parceria e mostra como o maior banco privado do país transforma dados em vantagem própria de IA.
Itaú (Foto/Divulgação: Itaú)
, Redator
9 min
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26 out 2026
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Atualizado: 26 out 2026
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Toda empresa pode contratar os mesmos modelos de inteligência artificial que o concorrente usa. Nenhuma pode contratar os dados, o conhecimento e a escala que só ela tem. Foi com esse raciocínio que o Itaú Unibanco anunciou, nesta segunda-feira, 26 de outubro, a compra de 100% da NeoSpace, startup brasileira especializada em modelos fundacionais de IA para dados, por R$ 2,925 bilhões, segundo o Seu Dinheiro.
O movimento coloca o banco num grupo pequeno de instituições financeiras no mundo dispostas a desenvolver a própria tecnologia de base em IA, em vez de só consumir a de terceiros.
A NeoSpace desenvolve modelos fundacionais capazes de identificar padrões e relações complexas em grandes volumes de dados. É uma família de IA diferente dos chatbots que dominam as manchetes. Em vez de conversar, esses modelos entendem comportamento: como um cliente usa a conta, que sinais antecedem uma necessidade de crédito, que transação foge do padrão.
Para um banco com dezenas de milhões de clientes, essa é a matéria-prima de quase tudo que importa: crédito, relacionamento, prevenção a fraudes, recomendação.
Quando o banco entrou no capital da startup, em janeiro de 2025, o CEO Bruno Pierobon resumiu a proposta à InfoMoney: “Nossos modelos são desenvolvidos para compreender profundamente as necessidades e comportamentos dos clientes.”
Com paciência, e esse é talvez o maior aprendizado do caso. Em janeiro de 2025, o Itaú liderou uma rodada de US$ 18 milhões e ficou com 15% da NeoSpace, segundo a InfoMoney. A rodada também teve investidores de peso, como Micky Malta (Ribbit), Martin Escobari (General Atlantic), Nigel Morris (QED) e Hans Morris (NYCA). Junto com o aporte, os dois assinaram um acordo comercial para desenvolver soluções exclusivas para as plataformas digitais do banco.
Foram quase dois anos de trabalho conjunto antes da compra. Segundo o banco, a parceria já gera resultados em crédito, CRM e prevenção a fraudes.
A sequência é um modelo de como grandes empresas podem incorporar inovação com risco controlado: investir pouco, trabalhar junto, comprovar resultado e só então comprar. Quando o cheque grande chega, a tecnologia já foi testada dentro de casa, os times já se conhecem e o valor já foi demonstrado.
Porque o que se compra numa empresa de IA são, sobretudo, as pessoas e a cultura de pesquisa. Segundo o Convergência Digital, a NeoSpace manterá gestão e operação autônomas, com a equipe e as atividades de pesquisa e desenvolvimento preservadas. Bruno Pierobon segue como CEO.
É uma escolha sofisticada. Muitas aquisições de tecnologia perdem valor porque a startup é absorvida pela estrutura da compradora e os talentos vão embora. Preservar a autonomia protege exatamente o ativo que motivou o negócio.
O pagamento também foi desenhado para o longo prazo: uma parcela no fechamento e o restante distribuído ao longo de cinco anos, segundo o Seu Dinheiro. O fechamento depende das aprovações do Cade e do Banco Central.
Principalmente no ia.i, a plataforma de IA generativa do Itaú. Segundo o Convergência Digital, a tecnologia da NeoSpace deve sustentar a personalização de serviços, a orientação financeira e a adequação de ofertas de crédito ao perfil de cada cliente. Também deve reforçar a análise de crédito e a detecção de fraudes.
Na prática, a promessa é um banco que entende melhor cada cliente e oferece o produto certo na hora certa, com mais segurança.
Ela vai além do mercado brasileiro. Segundo o Seu Dinheiro, o CEO Milton Maluhy Filho quer o Itaú entre as instituições que vão moldar a próxima fase da indústria financeira global. “A aquisição da NeoSpace é um investimento estratégico nessa ambição”, afirmou.
O banco explica a lógica como uma combinação: tecnologia fundacional, conhecimento financeiro e escala. Cada uma dessas peças existe separadamente no mercado. Reunidas sob o mesmo teto, viram uma capacidade difícil de copiar.
O caso também conversa com o que a pesquisa internacional vem mostrando. O relatório de adoção de IA da Wharton com a GBK Collective, publicado neste mês, mostra que 50% das organizações que padronizaram uma plataforma de IA relatam retorno muito positivo, contra 9% das que seguem experimentando sem direção definida. Uma estratégia clara, com plataforma própria e dono definido, é a marca das empresas que mais capturam valor.
A primeira lição é tratar dados como o principal diferencial competitivo na era da IA. Modelos genéricos estão disponíveis para todos; o que torna a IA única é o que ela aprende com os dados da empresa.
A segunda é a sequência. Investir, cocriar e só então comprar reduz o risco de aquisições de tecnologia, que costumam ser apostas caras.
A terceira é respeitar a cultura de quem se compra. Inovação raramente sobrevive quando é encaixada à força em estruturas tradicionais.
A quarta talvez seja a mais difícil de copiar: ambição. Desenvolver tecnologia própria de base exige visão de longo prazo e disposição para investir antes de os resultados aparecerem por inteiro.
Essa é a diferença que o movimento do Itaú deixa evidente. Usar IA virou o mínimo esperado. Construir com ela uma capacidade própria, ancorada nos dados, no conhecimento e na escala que só a sua organização tem, é o que separa líderes de seguidores. Organizar a empresa inteira em torno dessa ambição, da estratégia à estrutura, é o que o AI FIRST da StartSe propõe a lideranças que querem fazer da IA um diferencial, e não só mais uma ferramenta.
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