O que esperar do maior evento mundial de varejo em 2026?
NRF
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16 min
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6 jan 2026
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Atualizado: 6 jan 2026
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Artigo por Augusto Rocha
Em 2026, estarei na NRF como VP da Pmweb, conselheiro da Criamigos, conselheiro da Widde e curador do Grupo Brasil Varejo. Esse conjunto de papéis traduz bem a forma como eu enxergo a NRF há anos: não apenas como um evento, mas como um ponto de encontro entre estratégia, tecnologia, experiência e negócios reais. Há mais de três décadas, milhares de brasileiros enfrentam o inverno de Nova Iorque para participar da maior feira de varejo dos Estados Unidos e se inspirar vivendo, em primeira mão, o futuro do setor.
Durante muito tempo, o mercado anunciou o fim das lojas físicas. A NRF dos últimos anos mostrou o caminho oposto. A loja voltou ao centro da estratégia, agora como espaço de experiência, relacionamento e construção de marca.
Os números confirmam essa virada: segundo a Mintel, £7 de cada £10 gastos no varejo em 2025 passaram por uma loja física. Após anos de retração, 2025 marcou uma renovação dos investimentos em varejo físico, especialmente em locais de alto tráfego e desenvolvimentos de uso misto. Mas não se trata de retorno aos formatos tradicionais - as lojas agora são posicionadas como centros de experiência, hubs de fulfillment e pontos de contato de marca, não apenas espaços transacionais.
A pesquisa da Salesforce reforça: 59% dos varejistas físicos agora oferecem serviços in-store como customização e reparos, enquanto 46% disponibilizam espaços dedicados para eventos e encontros comunitários. De sessões de styling pessoal a aulas de culinária, de meet-and-greets com celebridades a espaços para grupos comunitários locais, dar aos compradores algo além de apenas compras tornou-se essencial para construir conexão e reputação.
Em 2026, quero observar quais cases de lojas físicas vão realmente conquistar os participantes. Não pela estética ou pelo impacto visual isolado, mas pela capacidade de integrar dados, storytelling, conveniência e emoção em experiências relevantes e memoráveis. A NRF 2026 destaca isso com tours especializados de lojas em Nova York, mostrando inovação in-store em ação, além de sessões específicas sobre criação de experiências imersivas para clientes.
A tecnologia segue como fio condutor dessa transformação. Quero ver o uso efetivo da inteligência artificial, menos promessa e mais aplicação concreta no dia a dia do varejo, seja em personalização, previsão de demanda ou atendimento.
A NRF 2026 responde a essa necessidade com um AI Stage completamente novo - uma coleção curada de sessões que oferece aos participantes um mergulho profundo no papel transformador da IA, robótica, agentic AI e tecnologias emergentes no varejo. Andy Szanger, diretor de indústrias estratégicas da CDW, resume: "Há muitos relatórios mostrando que varejistas que começaram a testar IA estão muito à frente daqueles que estão esperando. Nosso objetivo é fazê-los se mover." A previsão da Gartner projeta que os gastos de TI no varejo alcançarão US$ 240,7 bilhões até 2026, impulsionados principalmente por pressões de margem e necessidade de eficiência operacional.
A robótica também ganha protagonismo como resposta à crise de mão de obra nos Estados Unidos, apoiando operações mais eficientes e sustentáveis. Soma-se a isso o avanço do video commerce, uma frente que acompanho de perto como conselheiro da Widde, influenciada pelas lives do comércio asiático, pelo TikTok Shop e pela consolidação do vídeo como motor de conversão nas plataformas sociais.
Os dados são impressionantes: o livestream e-commerce global crescerá de US$ 19,86 bilhões em 2025 para US$ 258,76 bilhões até 2034, com CAGR de 33,01%. As taxas de conversão em livestream shopping atingem 10-30%, comparadas a apenas 1-3% no e-commerce tradicional. A Geração Z tem 1,6-1,7 vezes mais probabilidade de comprar através de transmissões ao vivo.
Há também um conjunto de temas recorrentes na NRF que merece um olhar mais crítico. Retail media deixou de ser tendência e passou a ser uma das principais alavancas de geração de lucro do varejo, especialmente em um cenário de margens cada vez mais pressionadas pelos marketplaces.
Os números são contundentes: o setor de retail media deve gerar US$ 179,5 bilhões globalmente em 2025 - um aumento de 15,4% ano a ano - superando pela primeira vez a receita total da TV e representando 15,9% de toda a publicidade. As projeções da Bain & Company indicam que o mercado chegará a US$ 140 bilhões até 2026, com os EUA liderando com crescimento anual de 16%.
A Amazon mantém 75% de participação de mercado, com receita publicitária estimada em US$ 60 bilhões em 2025. O Walmart Connect cresceu 31,6% em 2024, alcançando entre US$ 3,4 e US$ 4,4 bilhões. Kroger, CVS, Target e até Costco (com seus 74,5 milhões de membros) estão transformando suas propriedades digitais em redes de mídia de varejo em escala.
A NRF 2026 dedica uma sessão especial ao tema: "What's in Store for Retail Media Networks", reconhecendo que este deixou de ser experimental para se tornar uma linha orçamentária essencial. Mais de 80% dos anunciantes digitais já alocaram orçamento para retail media, e a maioria planeja aumentar investimentos.
Omnicanalidade e sustentabilidade seguem importantes, mas já não se sustentam no discurso, apenas na execução. Os dados da Placer.ai mostram que 73% dos compradores se movem entre canais antes de comprar. As visitas aos centros de distribuição de e-commerce cresceram consistentemente entre outubro de 2021 e setembro de 2025, enquanto a participação de viagens curtas (menos de 10 minutos) a grandes redes como Target, Walmart, BJ's e Sam's Club também aumentou.
Isso sugere que, embora as compras online continuem se expandindo, os consumidores permanecem altamente engajados com locais físicos através de BOPIS (Buy Online, Pick Up In-Store) e canais de fulfillment no mesmo dia. O Walmart está testando "dark stores" - espaços de varejo convertidos em hubs de fulfillment local que aceleram entregas e permitem retirada rápida pelo cliente.
A Colliers projeta que o varejo baseado em lojas nos EUA crescerá 1,5% em 2025, mantendo 76% de participação nas vendas totais. Clientes omnichannel gastam 1,5 vezes mais por mês comparados aos compradores de um único canal, e 75% dos compradores usam uma combinação de canais online e físicos, com jornadas frequentemente envolvendo três ou mais pontos de contato por compra.
Quando falamos de experiência financeira invisível, o Brasil talvez tenha mais a ensinar do que a aprender. O Pix mostrou que fluidez, escala e adoção em massa são possíveis, sem tratar complexidade como sofisticação.
Enquanto isso, globalmente, os sistemas RTP (Real-Time Payments) caminham para 27,8% dos pagamentos eletrônicos globais, e o volume de BNPL (Buy Now, Pay Later) se dirige a US$ 450 bilhões até 2026. A automação de varejo está escalando, com o mercado global caminhando para US$ 60,87 bilhões até 2032, com CAGR de 9,7%. Varejistas estão aumentando o engajamento com tecnologias como mesas de checkout RFID que permitem pagamentos em menos de um minuto.
Outro tema central para mim será o CRM como eixo das estratégias de crescimento. Com o aumento expressivo do custo de aquisição de clientes desde a pandemia, nunca foi tão importante manter, aprofundar e expandir o relacionamento com quem já compra das marcas.
Os dados são alarmantes: o CAC (Customer Acquisition Cost) no e-commerce aumentou cerca de 40% entre 2023 e 2025. Pesquisas recentes mostram que a maioria dos negócios de e-commerce perde US$ 29 em média por novo cliente adquirido (após contabilizar custos de marketing e devoluções de produtos), versus uma perda de US$ 9 em 2013. Esse aumento de 222% demonstra a importância de (a) reduzir custos de aquisição de clientes e (b) maximizar retenção e valor vitalício.
Mais de 65% dos varejistas pesquisados pela Ecwid reportaram algum aumento no CAC, com 30% vendo aumentos significativos. Como resposta, 45% aumentaram preços e mais da metade está colocando maior foco em retenção de clientes para compensar o alto CAC - uma estratégia vencedora, dado que clientes existentes geralmente representam a maior parte dos lucros.
Esse sempre foi o meu papel original e o ponto a partir do qual fui somando novas responsabilidades. Como VP da Pmweb, parte do Grupo WPP, vejo diariamente como dados, tecnologia e estratégia de CRM deixaram de ser suporte para se tornarem o coração das decisões de varejo. Durante a NRF, também receberei aproximadamente mil visitantes internacionais no escritório do Grupo WPP, no World Trade Center, além de visitar as maiores empresas de tecnologia e meios de pagamento para antecipar as inovações que vão impactar o nosso mercado.
E, em meio a toda a atenção dedicada à inteligência artificial e à robótica, talvez o tema mais relevante continue sendo pessoas e cultura. Tecnologia acelera, automatiza e escala, mas são as pessoas que constroem experiências, sustentam operações e dão sentido às estratégias.
A NRF 2026 reconhece isso dedicando sessões específicas sobre como reter e desenvolver associados in-store, equilibrar vozes executivas nas organizações e preservar cultura empresarial diante de mudanças políticas. O evento destaca que entregar experiências de cliente de próximo nível requer associados com o conhecimento e suporte necessários para ter sucesso.
Este ano, a NRF 2026 reúne aproximadamente 40.000 participantes de todo o mundo, representantes de 19.000 empresas de varejo, bens de consumo e restaurantes, abrangendo mais de 6.000 marcas de 98 países. São mais de 175 sessões, 1.000+ expositores, e keynotes com líderes como Fran Horowitz (CEO da Abercrombie & Fitch), Linda Hubbard (CEO da Carhartt), Marc Metrick (CEO da Saks Global) e Michael Rubin (fundador e CEO da Fanatics).
O tema "The Next Now" não é puramente teórico - é prático e repleto de aprendizados implementáveis que os varejistas podem colocar em movimento assim que voltam para casa.
A NRF ajuda a enxergar o futuro, mas é a cultura que determina quem consegue, de fato, chegar até ele.
A NRF começa em Nova Iorque, mas é na volta para casa que ela prova o seu valor. A Criamigos é um exemplo vivo disso. A empresa nasceu depois que suas duas fundadoras participaram da NRF, trouxeram tendências globais e as aplicaram com espírito brasileiro, sensibilidade e coragem. Como mães empreendedoras, construíram um negócio de memórias e experiências para crianças e suas famílias, que hoje cresce de forma acelerada por todo o Brasil. Convido você a acompanhar minhas redes sociais para a cobertura da feira e, depois, aprofundar esses aprendizados nas palestras de pós-NRF. É quando o futuro atravessa o oceano e encontra contexto que ele realmente acontece.
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