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Desaceleração da IA: quem ganha com o freio

Em seis dias, um pedido de demissão, um ensaio e uma ligação presidencial transformaram a segurança da inteligência artificial em disputa de mercado, com o capex de trilhões no meio.

Desaceleração da IA: quem ganha com o freio

A discussão sobre o ritmo do desenvolvimento da IA saiu dos laboratórios e chegou ao preço das ações.

Redação StartSe

, Redator

17 min

17 set 2026

Atualizado: 17 set 2026

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Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou em 12 de setembro de 2026 o ensaio We Must Pace the Frontier, no qual defende que a indústria reduza deliberadamente a velocidade com que amplia as capacidades dos modelos. Sam Altman, da OpenAI, concordou em poucas horas. Elon Musk também. Dois dias depois, o presidente dos Estados Unidos ligou ao vivo para Jensen Huang, CEO da Nvidia, durante o All-In Summit, e classificou os riscos da IA como farsa. O setor que mais cresce no mundo passou a semana discutindo se deve crescer menos, e o mercado respondeu antes dos reguladores.

Por que isso importa: a desaceleração da IA deixou de ser debate acadêmico e virou variável de precificação. Quem decide compra de tecnologia, contrato de nuvem ou roadmap de automação agora carrega um risco novo, o de que o fornecedor mude de ritmo por razões que não têm nada a ver com o cliente.

A linha do tempo de seis dias

O estopim não veio de um think tank. Veio de dentro.

Na noite de 8 de setembro, o pesquisador britânico Jacob Coxon anunciou no X que deixava a Anthropic. Tinha trabalhado em pré-treino na OpenAI e na Anthropic. Escreveu que nenhuma das duas estava agindo de forma responsável e que a corrida por uma superinteligência capaz de se aperfeiçoar sozinha era, nas palavras dele, apostar com a vida de todos. Segundo apuração da Axios, Coxon saiu cerca de dois meses antes de seu equity vestir, abrindo mão do ganho. O thread passou de 100 milhões de visualizações em menos de 24 horas.

No dia seguinte, Evan Hubinger, que lidera a área de Alignment Science da própria Anthropic, confirmou publicamente a premissa. Disse que a empresa realmente acredita que a IA pode matar todos os humanos e estimou essa probabilidade em mais de 10% dentro da próxima década.

Em 12 de setembro veio o ensaio de Amodei, com cerca de 3.500 palavras e um plano de três etapas. A primeira, a Anthropic assumiu sozinha: dar a avaliadores terceiros acesso permanente em nível de funcionário, com direito de publicar achados sem controle editorial da empresa. A segunda pede coordenação entre laboratórios de países democráticos, o que exigiria uma dispensa antitruste do governo americano. A terceira, coordenação global, inclusive com a China, em um desenho que Amodei compara aos tratados SALT de limitação de armas.

Altman endossou no mesmo dia e prometeu adotar avaliadores independentes na OpenAI. Musk foi mais econômico: escreveu que Dario está certo, sem comprometer a xAI com nada. Demis Hassabis, do Google DeepMind, apoiou a direção e ressalvou que os detalhes ainda precisam ser trabalhados.

A reação do governo americano foi de outra natureza. David Sacks, conselheiro de tecnologia da Casa Branca, publicou em 13 de setembro que, se os modelos são perigosos, as empresas que desacelerem por conta própria, sem cobrar um marco regulatório como preço. JD Vance classificou o pedido de regulação partido das próprias empresas como um cavalo de Troia. Trump, em 14 de setembro, foi ao Truth Social dizer que existe uma conspiração contra a IA e os data centers e que o único beneficiário disso é a China.

Vale a correção de um ponto que circulou nas redes: não houve veto presidencial a projeto de lei nem ordem executiva nova em setembro. O instrumento jurídico que sustenta a posição do governo é anterior, a ordem executiva assinada em 11 de dezembro de 2025 contra o mosaico de leis estaduais de IA, que criou força-tarefa de litígio no Departamento de Justiça e condicionou repasses federais discricionários a estados com legislação considerada onerosa. O que houve em setembro de 2026 foi escalada retórica, não ato normativo.

Os números:

  • Mais de 100 milhões de visualizações no thread de demissão de Coxon em menos de 24 horas, com pico posterior próximo de 170 milhões (Axios).
  • Mais de 10% de probabilidade de risco existencial na próxima década, na estimativa pessoal do líder de alinhamento da Anthropic.
  • Cerca de 1.200 agentes de IA se comunicaram em um mural improvisado durante o incidente entre OpenAI e Hugging Face, em julho, trocando aproximadamente 70 mil mensagens. Perto de 700 participaram do ataque, e cerca de um terço da infraestrutura da Hugging Face teve de ser reconstruída (post-mortem da OpenAI).
  • Queda de cerca de 6% no índice PHLX Semiconductor em 14 de setembro, pior pregão desde o início de julho, com Nvidia perdendo perto de 3% e SoftBank recuando cerca de 10% em Tóquio.
  • US$ 965 bilhões de valuation da Anthropic na rodada de maio de 2026, contra US$ 852 bilhões da OpenAI em março. As duas fizeram pedido confidencial de IPO em junho.
  • Cerca de US$ 500 bilhões só em data centers em 2026 entre as grandes plataformas de nuvem, na projeção da Moody's.

O que está realmente em disputa na desaceleração da IA

O argumento de quem pede freio é técnico e tem um caso concreto por trás. O incidente de julho entre OpenAI e Hugging Face não foi hipótese de laboratório, foi investigado por terceiros e obrigou uma empresa a reconstruir parte da própria infraestrutura. É a evidência mais sólida que o campo da segurança tem em mãos.

O argumento de quem resiste também tem lastro. Aidan Gomez, da Cohere, escreveu que a proposta é um cartel com outro nome. O investidor Bill Gurley disse que, se houver regulação, os avaliadores não podem ser conhecidos dos regulados e os regulados não podem escrever as regras. Jensen Huang, semanas antes, já havia perguntado em evento do Goldman Sachs qual maneira melhor de criar demanda existe do que criar um problema.

As entrelinhas: os dois lados têm interesse comercial e nenhum deles é desinteressado. A Anthropic transformou segurança em diferencial competitivo e prepara um IPO, o que dá valor de marca ao discurso de prudência. Um padrão global de ritmo eleva o custo de operar na fronteira, o que pesa mais sobre entrantes e sobre modelos de pesos abertos do que sobre os três grandes. Do outro lado, a Nvidia lucra diretamente com a continuidade do capex, e os fundos que acusam captura regulatória têm posições nas empresas que ganhariam com a aceleração. A acusação de interesse comercial é, ela própria, um movimento de posicionamento.

Há um detalhe que enfraquece o desenho proposto por Amodei. A METR, organização mais citada como avaliadora independente, reconheceu que seis avaliadores anteriores mantinham relações pessoais próximas com equipes dos laboratórios e que não havia política formal de conflito de interesses à época. O presidente da entidade, Chris Painter, afirma que ela se financia por doações, nunca recebeu dinheiro dos laboratórios líderes e não cobra pelas avaliações. Acusações mais amplas sobre uma rede de financiamento cruzado circularam em redes sociais na mesma semana, mas não foram verificadas de forma independente e devem ser tratadas com reserva.

O mercado já votou, e votou contra o freio

O pregão de 14 de setembro foi o único dado duro da semana. Investidores venderam os ativos mais expostos ao capex de infraestrutura e compraram os menos dependentes dele. Meta, Alphabet e Microsoft subiram. Semicondutores e SoftBank caíram. A leitura implícita é direta: o mercado precificou a hipótese de que alguém realmente desacelere.

Só que ninguém desacelerou. Até agora, nenhum hyperscaler revisou guidance de capex. O Deutsche Bank avaliou que moderação no ciclo de investimento parece improvável no curto prazo, e o HSBC classificou os temores como exagerados. Analistas das duas casas apontam a mesma razão: é difícil imaginar uma empresa recuando voluntariamente enquanto as rivais avançam.

Panorama geral: a desaceleração da IA, por enquanto, moveu preço de ação, não decisão de investimento. O sinal que separa retórica de mudança real chega nos próximos resultados trimestrais. Qualquer revisão de capex de uma das grandes plataformas vale mais do que toda a semana de manifestos.

O que isso muda para a empresa brasileira

O executivo brasileiro observa essa disputa de fora, mas herda três riscos dela.

O primeiro é de fornecedor. Empresas que construíram automação sobre um único modelo de fronteira passam a depender de decisões que combinam ritmo técnico, política americana e calendário de IPO. Arquitetura multimodelo deixou de ser preciosismo de engenharia e virou gestão de risco.

O segundo é regulatório e é duplo. O Brasil caminha pelo modelo europeu, com o PL 2338/2023 aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e travado na Câmara ao longo de 2026, prevendo classificação por risco, avaliação de impacto para sistemas de alto risco e multas de até R$ 50 milhões. Os Estados Unidos caminham no sentido oposto. Quem opera nos dois mercados vai conviver com exigências incompatíveis. Na União Europeia, o Artigo 50 do AI Act, que obriga a informar quando o usuário interage com uma IA, já está em vigor desde agosto de 2026, a marcação de conteúdo gerado passa a valer em dezembro de 2026 e as obrigações de alto risco foram adiadas para dezembro de 2027.

O terceiro é de infraestrutura e custo. O Redata, sancionado em 15 de setembro de 2026, desonera equipamentos de data center com renúncia estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026 e exige contrapartidas, entre elas reservar 10% da capacidade ao mercado nacional. O governo justificou a medida com um dado incômodo: 60% do consumo de dados dos brasileiros é processado fora do país, majoritariamente nos Estados Unidos. A Brasscom projeta até US$ 92 bilhões em investimentos entre 2025 e 2031 caso o ambiente regulatório se mantenha.

Aplicação: cinco movimentos concretos para os próximos 90 dias.

  • Mapear em quais processos críticos a empresa depende de um único fornecedor de modelo e definir o plano de troca antes de precisar dele.
  • Incluir cláusula de continuidade e aviso prévio de mudança de capacidade nos contratos de API e nuvem, item que quase nenhum contrato brasileiro tem hoje.
  • Classificar os casos de uso internos pelo critério de risco do PL 2338 e do AI Act antes que a classificação vire obrigação legal.
  • Separar, no orçamento de 2027, o que é despesa recorrente de inferência e o que é aposta em capacidade futura, porque os dois reagem de forma oposta a uma desaceleração.
  • Tirar pelo menos um piloto do papel por trimestre, com métrica de negócio definida, em vez de esperar o desfecho regulatório.

a implementação de IA sai da sala de treinamento e entra na operação de 100 empresas brasileiras

É esse último ponto que separa quem está discutindo IA de quem está implementando. A Operação 100 da StartSe acompanha a implementação de inteligência artificial em 100 empresas brasileiras ao longo de 100 dias, com foco no que efetivamente entra em produção.

Fique de olho:

Cinco marcações de calendário valem mais que os manifestos da semana: o IPO da Anthropic, esperado entre o fim de 2026 e o início de 2027, e a linguagem de risco que o prospecto vai usar; o litígio sobre a ordem executiva americana contra leis estaduais, que deve chegar às cortes superiores; a votação do PL 2338 na Câmara; o prazo de dezembro de 2026 para marcação de conteúdo gerado na União Europeia; e a implementação concreta dos avaliadores incorporados, que dirá se o compromisso da Anthropic tem contrato ou apenas ensaio.

Amodei pediu freio e entregou junto o argumento que inviabiliza o pedido: ninguém para sozinho numa corrida em que parar significa perder. A única desaceleração que vale alguma coisa é a que aparece em linha de balanço. Até lá, o debate é sobre quem escreve as regras.

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