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A capital mundial dos data centers quer pisar no freio

O condado de Loudoun, na Virgínia, concentra mais de 250 data centers e agora prepara uma pausa em novos projetos. Para as empresas, a energia virou o limite da IA.

A capital mundial dos data centers quer pisar no freio

Loudoun, na Virginia (EUA)

Redação StartSe

, Redator

10 min

•

19 out 2026

•

Atualizado: 19 out 2026

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Existe um lugar no mundo por onde passa uma parte enorme do tráfego da internet. Fica a cerca de 50 quilômetros de Washington, tem pastos, condomínios residenciais e, entre eles, prédios sem janelas do tamanho de vários campos de futebol.

É o condado de Loudoun, na Virgínia, conhecido como “Data Center Alley”, o corredor dos data centers. São mais de 250 instalações, uma das maiores concentrações do planeta. Durante quase duas décadas, o condado recebeu esses projetos de braços abertos.

Agora, quer pisar no freio, como mostrou a reportagem de ontem, no Fantástico, da TV Globo. Em 16 de setembro, os supervisores do condado votaram por 7 a 1, com uma abstenção, para redigir uma resolução que suspende por até 12 meses a análise de novos pedidos de data centers, segundo a MGrid. A votação final está prevista para 20 de outubro.

Por que Loudoun virou a capital dos data centers?

Por uma combinação de infraestrutura, energia barata e incentivo fiscal. A região está próxima de grandes troncos de fibra óptica que atendem a capital americana, tinha energia disponível e acesso à rede elétrica da Dominion Energy, e ofereceu condições atraentes para as empresas de tecnologia.

O condado colheu os frutos. Segundo a FOX 5 DC, com base em registros oficiais, os data centers representam 38% da base tributária do condado e geram mais de US$ 1 bilhão em receita. Esse dinheiro permitiu reduzir impostos para os moradores. Segundo a prefeitura de Loudoun, o imposto sobre imóveis caiu de US$ 1,145 por US$ 100 de valor avaliado em 2016 para US$ 0,805 em 2026.

Durante anos, a conta parecia perfeita: empresas de tecnologia pagavam a maior parte, e os moradores pagavam menos.

O que mudou?

A escala. A explosão da IA multiplicou a demanda por data centers e, principalmente, por energia. Segundo o supervisor Michael Turner, citado pelo Piedmont Environmental Council, a demanda dos data centers de Loudoun é hoje de 5,33 gigawatts e deve passar de 17,75 gigawatts até 2030. É mais que o triplo em quatro anos.

A rede elétrica não acompanha esse ritmo. Segundo a mesma organização, alguns projetos na fila podem esperar até 2040 ou mais para receber energia. Uma das empresas do setor, a Vantage, informou em uma reunião com moradores que seu campus VA2 talvez só seja ligado à rede em 2040. Enquanto isso, deve operar com turbinas a gás no próprio terreno.

Para levar mais energia à região, as empresas de energia propõem novas linhas de transmissão de alta tensão cortando áreas rurais e bairros residenciais. Mais de 500 pessoas compareceram a uma única reunião pública sobre uma dessas linhas.

O que os moradores estão questionando?

O custo de viver ao lado da infraestrutura da IA. As reclamações vão do barulho constante dos sistemas de refrigeração à poluição dos geradores a diesel, do aumento das contas de energia à perda de espaço para moradia. Para muitos, as linhas de transmissão foram a gota d’água.

A mudança de humor foi rápida. Michael Turner resumiu a virada em uma conferência para governos locais de Maryland, segundo o Virginia Mercury. Antes, os moradores aceitavam os data centers em troca de impostos menores. Agora, diz ele, a resposta é: “Eu não me importo. Aumentem meus impostos. Não construam mais data centers.”

Mesmo assim, Turner é contra proibições permanentes. Ele defende regras mais rígidas: limites de ruído, transparência sobre uso de energia e água e controle das emissões dos geradores. E dá um conselho às prefeituras: nunca assinar acordos de confidencialidade com as empresas.

A pausa em Loudoun vai parar os data centers?

Não, mas muda as regras do jogo. A pausa proposta vale para novos pedidos e não afeta projetos já aprovados, segundo a MGrid. A presidente do conselho de supervisores, Phyllis Randall, insiste que não se trata de uma moratória, e sim de tempo para criar novas leis. O próprio advogado do condado alertou que uma proibição por prazo indeterminado seria ilegal.

Há ainda uma disputa paralela. Duas supervisoras querem que 23 projetos já em andamento, que ficaram de fora das regras mais rígidas aprovadas em 2025, também passem por audiências públicas e votação final. As empresas argumentam que esses projetos já tinham sinal verde e que mudar as regras agora traria insegurança jurídica.

O condado também prepara uma revisão completa de onde os data centers podem ser construídos e de quais regras devem seguir, com conclusão prevista para a primavera de 2027 nos EUA.

Por que isso importa para quem não está na Virgínia?

Porque Loudoun é um retrato antecipado de um problema global. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo de eletricidade dos data centers no mundo vai mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 terawatts-hora. Nos EUA, os data centers devem responder por quase metade do crescimento da demanda de energia até lá.

O Brasil também está nessa rota. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, citado pela eixos, os pedidos de acesso à rede elétrica para data centers já chegam a 38 gigawatts. Uma parte deles, de 7,1 gigawatts, representa investimentos estimados em R$ 159 bilhões. “Quando falamos em data center, não falamos apenas em tecnologia, falamos principalmente em energia”, disse o ministro. O regime especial de tributação para o setor, o Redata, está em discussão no Senado.

A lição de Loudoun é que a aceitação das comunidades não é garantida, nem mesmo onde a indústria trouxe benefícios claros.

O que muda para a estratégia de IA das empresas?

Muda a premissa de que a capacidade de computação será sempre abundante e barata. Se a energia virou gargalo, a disponibilidade de infraestrutura e o custo de usar IA podem não seguir a trajetória de queda que muitos planos de negócio assumem.

Para as lideranças, isso traz três reflexões práticas. A primeira é sobre eficiência: usar o modelo certo para cada tarefa, sem desperdiçar computação com modelos gigantes onde um menor resolve. A segunda é sobre dependência: entender onde estão os fornecedores de nuvem e IA da empresa e quais riscos de capacidade e custo isso traz. A terceira é sobre reputação: o impacto ambiental e social da IA começa a entrar no radar de clientes, investidores e reguladores.

Nenhuma dessas questões aparecia nas apresentações de IA de dois anos atrás. Todas devem aparecer nas próximas.

Sua estratégia de IA considera os limites físicos da tecnologia?

A IA costuma ser discutida como algo abstrato, que vive “na nuvem”. Loudoun lembra que essa nuvem tem endereço, consome energia e depende da tolerância de quem mora ao lado. As empresas que tratarem a IA só como software vão ser surpreendidas por custos, atrasos e riscos que nunca entraram no planejamento.

Construir uma estratégia de IA que considere eficiência, custos reais e impactos, e não só as possibilidades da tecnologia, é o que o AI FIRST da StartSe trabalha com lideranças que querem transformar a empresa com IA sem perder de vista o mundo físico em que ela opera.

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