Um levantamento com 352 conselheiros brasileiros mostra que técnica e formação avançaram, mas a porta de entrada nos colegiados continua sendo, quase sempre, quem você conhece.
Afinal, qual o perfil de quem ocupa cadeiras de conselho?
, Redator
8 min
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14 ago 2026
•
Atualizado: 14 ago 2026
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Ser bom no que faz ajuda, mas não é isso que abre a porta de um conselho no Brasil. O Panorama dos Conselhos no Brasil 2026, pesquisa da EXEC Consultoria com 352 conselheiros de administração e consultivos, coletada entre fevereiro e março, expõe um mercado que fala a linguagem da meritocracia e opera, na prática, pela lógica do networking. Os números ajudam a entender por que tantas empresas ainda têm dificuldade em renovar e diversificar seus colegiados.
A amostra reúne conselheiros experientes: 57,4% atua há mais de seis anos e 45% já presidiu algum colegiado. A formação técnica em governança é quase universal, presente em 92% dos respondentes, com 60% tendo concluído mais de dois cursos na área. O desequilíbrio aparece na composição demográfica. Mulheres somam 28,6% da amostra total, mas caem para 19% entre os veteranos com mais de dez anos de atuação. Entre os entrantes, com até dois anos de experiência, a participação feminina sobe para 43%, sinal de renovação lenta, porém real. A diversidade étnica permanece baixa, com 6,3% de conselheiros pretos ou pardos, e a presença de pessoas com deficiência é quase nula, em 0,3%.
A geração X domina os assentos, com cerca de 60% do total, enquanto os millennials ainda representam apenas 11% entre os entrantes. Os baby boomers, maioria histórica, hoje se concentram entre os veteranos de mais de dez anos de casa.
O dado mais contundente da pesquisa está na porta de entrada. 96% dos conselheiros chegou ao cargo por indicação via networking, e quase 28% entrou dessa forma mais de cinco vezes ao longo da carreira. Em contrapartida, 67% nunca passou por um processo formal com headhunter, e 80% nunca teve envolvimento da área de RH na própria contratação. Isso significa que a seleção de conselheiros segue majoritariamente informal, sustentada por relações pessoais e reputação construída dentro de círculos já estabelecidos, e não por processos estruturados de avaliação de competências.
Esse padrão importa tanto para quem planeja uma carreira em conselhos quanto para empresas que buscam ampliar o repertório de seus colegiados. Programas voltados à formação e à conexão de conselheiros, como o Board Program da StartSe, atuam justamente nesse ponto, oferecendo repertório técnico e rede a quem quer entrar ou se profissionalizar nesse mercado. Além disso, a EXEC é parceira da StartSe nesta jornada, acompanhando os novos conselheiros formados aqui e conectando-os a oportunidades reais de mercado.
Governança e gestão geral concentram as maiores expertises declaradas, com 51% e 49% dos conselheiros se dizendo especialistas nos temas. O problema aparece quando se cruzam essas competências com as pautas que de fato dominam as reuniões. Tecnologia e digital são a segunda maior lacuna técnica, com 37% admitindo pouco ou nenhum conhecimento no tema, justamente a terceira pauta mais discutida nos colegiados. O maior gap, no entanto, é jurídico: 54% se declara sem expertise na área, mesmo com riscos e compliance entre os quatro temas mais recorrentes.
Esse descompasso entre o que os conselhos discutem e o que os conselheiros dominam tecnicamente é apontado pela própria pesquisa como um dos principais riscos de governança do mercado brasileiro. Falta também estrutura de apoio: 57% das empresas não conta com um Governance Officer profissional dedicado.
A remuneração ajuda a explicar o acúmulo de assentos. Em conselhos de administração, a média mensal fica em torno de R$ 20 mil, considerando doze meses, enquanto em conselhos consultivos a média cai para R$ 10 mil. Como o valor pago nos colegiados consultivos raramente sustenta dedicação exclusiva, o resultado é o acúmulo de cadeiras: em média, os conselheiros atuam simultaneamente em quatro colegiados somando conselhos e comitês, e 13% da amostra participa de sete ou mais ao mesmo tempo. Entre os que ganham acima de R$ 240 mil por ano em conselhos consultivos, apenas 36% atua de forma exclusiva em colegiados, sem função executiva paralela.
Esse cenário de overboarding é agravado pela ausência de avaliação formal: 44,3% dos conselheiros nunca participou de um assessment de efetividade, prática recomendada para medir desempenho individual e coletivo do colegiado.
O mercado brasileiro de conselhos está em transformação, mas ainda distante das melhores práticas internacionais. Cultura e pessoas se consolidam como pauta estratégica, presentes em mais da metade das empresas pesquisadas, enquanto o monitoramento geopolítico continua praticamente ausente das discussões.
Para quem constrói carreira como conselheiro, formação técnica sólida em tecnologia e áreas jurídicas pesa mais do que nunca, mas ainda não substitui a rede de relacionamento como principal porta de entrada.
Para as empresas, o desafio é inverso: profissionalizar a seleção, ampliar o pool de candidatos além do networking pessoal dos próprios conselheiros e tratar a avaliação de efetividade como rotina, não exceção.
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