Em uma instalação no bairro de Polanco, na Cidade do México, uma máquina de 5 metros e 2.000 kg está fazendo algo que até recentemente parecia domínio exclusivo do toque humano mais delicado: criando embriões humanos.
Um grande avanço da ciência, mas um dilema para a ética humana
, redator(a) da StartSe
11 min
•
12 jan 2026
•
Atualizado: 12 jan 2026
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O sistema AURA, desenvolvido pela Conceivable Life Sciences, é a primeira plataforma mecânica capaz de realizar todas as etapas da criação de embriões para FIV (fertilização in vitro) de forma autônoma. E os resultados são concretos: 19 bebês saudáveis já nasceram de embriões criados inteiramente por robôs.
Não estamos falando de assistência automatizada. Estamos falando de automação completa — do rastreamento de espermatozoides à vitrificação de embriões, passando por mais de 200 etapas que tradicionalmente exigem embriologistas altamente treinados.
O sistema AURA opera através de seis estações robóticas que executam todo o processo:
Cada movimento é guiado por inteligência artificial que analisa características microscópicas e toma decisões em tempo real sobre quais células usar, quando e como.
O estudo piloto alcançou uma taxa de gravidez de 51% — resultando em 21 gestações e entre 18 e 19 nascimentos saudáveis. Para contexto, as taxas médias de sucesso de FIV variam significativamente dependendo da idade da paciente, mas geralmente ficam entre 30-40% para mulheres abaixo dos 35 anos.
Alan Murray, CEO da Conceivable, defende que a tecnologia traz "precisão robótica" para um processo onde "mãos humanas introduzem variabilidade, não importa quão qualificadas sejam."
O argumento faz sentido em teoria: embriologistas humanos, por melhores que sejam, têm dias ruins, ficam cansados, tomam decisões ligeiramente diferentes sob condições idênticas. Robôs não. Robôs executam exatamente o mesmo protocolo, na mesma temperatura, com a mesma pressão, todas as vezes.
Jacques Cohen, Diretor Científico da Conceivable e embriologista pioneiro que trabalhou com o laureado Nobel Robert Edwards, chamou o desenvolvimento de "um ponto de virada para a FIV."
Mas há uma camada mais profunda — e mais perturbadora — nessa história.
"O uso de IA na seleção de embriões significa que algoritmos de computador estão começando a tomar decisões sobre quem é trazido ao mundo."
Essa frase do Dr. Julian Koplin, bioeticista da Universidade Monash, deveria fazer você pausar e reler.
Algoritmos de computador estão começando a tomar decisões sobre quem é trazido ao mundo.
Não é exagero. Não é retórica. É literalmente o que está acontecendo.
Quando um sistema de IA seleciona qual espermatozoide usar, qual óvulo é viável, qual embrião tem maior probabilidade de resultar em gravidez bem-sucedida — ele está fazendo escolhas eugênicas, mesmo que não as chamemos assim.
Um estudo de 2024 publicado na Human Reproduction identificou várias preocupações críticas:
Desumanização da reprodução humana: Há algo profundamente simbólico sobre a concepção — mesmo que assistida — envolver toque humano, julgamento humano, cuidado humano. Quando isso se torna uma linha de montagem literalmente robótica, algo muda na experiência.
Viés algorítmico: Sistemas de IA treinados em conjuntos de dados históricos inevitavelmente incorporam vieses desses dados. Se um algoritmo aprende que embriões com certas características têm maior taxa de sucesso, ele vai favorecer essas características. Mas "maior taxa de sucesso" pode estar correlacionado com fatores socioeconômicos, étnicos ou outros vieses presentes nos dados de treinamento.
Lacunas de responsabilidade: Se algo der errado — um embrião viável é descartado, um não-viável é implantado — quem é responsável? O embriologista que supervisionou? A empresa que fez o software? O algoritmo que tomou a decisão?
Transparência: Pacientes entendem como a IA está selecionando seus embriões? Eles conseguem questionar ou contestar essas escolhas? A maioria dos sistemas de IA opera como "caixas-pretas" — você vê o input e o output, mas não o raciocínio intermediário.
Acesso equitativo: Automação robótica poderia, em teoria, democratizar o acesso à FIV reduzindo custos. Mas também pode criar uma medicina de duas velocidades — aqueles que podem pagar por embriologistas humanos experientes versus aqueles relegados à linha de montagem automatizada.
Aqui está o ponto crítico: a maioria das aplicações de IA em embriologia atualmente carece de aprovação da FDA.
A tecnologia está correndo anos à frente das regulamentações que deveriam governá-la. A Conceivable está conduzindo um ensaio clínico com 100 pacientes no México e planeja lançamento nos EUA em 2026. Mas as estruturas regulatórias americanas simplesmente não foram desenhadas para lidar com algoritmos tomando decisões sobre vida humana em estágios tão iniciais.
E isso não é exclusivo dos EUA. Nenhum país tem frameworks regulatórios robustos para IA em reprodução assistida.
Estamos, essencialmente, experimentando em tempo real.
Existe uma tensão fundamental aqui que não tem resolução fácil:
Por um lado: Automação e IA podem genuinamente melhorar taxas de sucesso, reduzir custos, democratizar acesso a tratamentos de fertilidade. Robôs não ficam cansados, não cometem erros por distração, não têm "dias ruins".
Por outro lado: Existem dimensões profundamente humanas da reprodução — autonomia, dignidade, consentimento informado — que podem ser comprometidas quando decisões sobre vida potencial são delegadas a algoritmos opacos.
E aqui está a parte difícil: ambas as perspectivas são válidas simultaneamente.
Os bioeticistas da Monash argumentam que, no mínimo:
Mas existe um problema prático: se sistemas automatizados provarem ser consistentemente mais eficazes que embriologistas humanos, negar IA aos pacientes não seria, em si, eticamente problemático?
Vamos assumir, por um momento, que sistemas como AURA realmente oferecem taxas de sucesso superiores. Que eles reduzem custos significativamente. Que eles democratizam acesso a tratamentos de fertilidade.
Mesmo assim: deveríamos automatizar completamente a criação de vida humana?
Não há resposta certa óbvia.
Para um casal desesperado por ter um filho após anos de tentativas fracassadas, a resposta pode ser: "Absolutamente, use qualquer tecnologia que funcione."
Para um bioeticista preocupado com eugenia algorítmica e desumanização da reprodução, a resposta pode ser: "Precisamos de freios, não de aceleração."
Ambas as posições vêm de lugares legítimos.
A Conceivable já captou US$ 70 milhões em financiamento. Outras empresas inevitavelmente seguirão. A tecnologia não vai desaparecer.
A questão não é se teremos embriões criados por robôs — já temos. A questão é que tipo de frameworks, regulamentações, transparências e salvaguardas construiremos em torno dessa tecnologia.
E, mais fundamentalmente: como equilibramos eficiência e autonomia, otimização e dignidade, progresso e precaução quando o que está em jogo é literalmente quem vem ao mundo?
Jacques Cohen está certo: isso é um ponto de virada para a FIV.
Julian Koplin também está certo: isso levanta questões éticas profundas que ainda não sabemos como responder.
E os 19 bebês que nasceram de embriões criados por robôs? Eles são a prova de que a tecnologia funciona.
Mas provar que funciona nunca foi a parte difícil. A parte difícil é decidir quando, como, e com quais salvaguardas devemos usar algo só porque podemos.
E essa conversa, ao contrário dos embriões, ainda está apenas começando.
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